O CALVÁRIO DA SAÚDE

Idalia sofre do coração. Ela é paciente de um hospital federal especializado no tratamento cardiológico. Além da pressão arterial que oscila, no início do ano, a doméstica passou a sentir fortes dores nos pés e nas mãos. Desconfiados de um provável diabetes, os médicos do hospital federal pediram uma bateria de exames e a recomendação de que procurasse um endocrinologista e um ortopedista. Idalia bateu na porta da rede municipal de saúde do Rio. Ao dar entrada no posto do Catete (zona sul da cidade), seu calvário só estava começando.

Antes de passar pelo médico, uma assistente social iria confirmar a sua residência e avaliar a real necessidade de atendimento. Só este procedimento levou quase um mês. Vencida a primeira etapa, Idalia voltou ao posto, na esperança de, finalmente, marcar as consultas com os especialistas e os exames. Mas, não. Ainda terá que passar pelo crivo de um clínico geral. A consulta foi marcada para o dia 12 de agosto, a data mais próxima. Só então, se o clínico achar pertinente, Idalia poderá marcar seus exames e a consulta com os dois especialistas, para sabe-se lá quando. Vamos rezar para que ainda esteja viva…

Este é o verdadeiro quadro da saúde da nossa cidade. Um sistema ineficiente, burocratizado, lento, desumano, que parece dar voltas pelo próprio rabo, sem chegar a lugar algum. E quem sofre é o cidadão menos favorecido.

No entanto, no último domingo, dia 19 de junho, fomos todos surpreendidos com um anúncio do prefeito Eduardo Paes, em que desenhava o maravilhoso mundo da saúde da cidade olímpica, em quatro caríssimas paginas, nos principais jornais da cidade. Na fábrica de sonhos da propaganda da prefeitura, o cidadão carioca tem atendimento de primeiro mundo, em qualquer unidade do município. Uma pena que a saúde colorida nas páginas de jornal, pagas pelo prefeito com dinheiro público, esteja anos luz de distância da cruel realidade dos postos da prefeitura, em que ser atendido é um bilhete premiado, graça concedida apenas a alguns bem-afortunados, muitas vezes através de pistolão. Uma lástima. Dinheiro não falta.

Pagamos muitos impostos para arcar com o atendimento de saúde garantido constitucionalmente a todo cidadão. E, como o prefeito sempre faz questão de lembrar, os cofres da prefeitura andam cheios – graças à arrecadação e a muitos empréstimos. As verbas destinadas à saúde são bastante robustas, R$ 4 bilhões para este ano. Logo, desconfio de que o que falta mesmo é competência, gestão, boa vontade e, acima de tudo, fechar o ralo da corrupção.

MEDALHA DE PIOR ASFALTO DO MUNDO

Dirigir nas ruas do Rio requer aptidão de motorista de rali.  Desviar das crateras, comparáveis às da lua, é um exercício olímpico. E é carro que quebra; pneu que fura; pista que racha. Chama atenção a rapidez do desgaste do asfalto utilizado pela prefeitura. Até a pista do VLT rachou em menos de uma semana! Fui investigar este mistério. E constatei, estarrecida, que a empresa responsável pela avaliação técnica da qualidade da massa asfáltica é a nossa velha conhecida Concremat, a mesma que gerenciou a obra da ciclovia Tim Maia, que desabou, e a duplicação do elevado do Joá, que em menos de dez dias já apresentava buracos.

A Concremat, que o carioca apelidou de ConcreMATA, é a maior das três empresas da família do secretário de Turismo do Rio. A empresa foi contratada pela prefeitura, por R$ 3,3 milhões, para controlar a qualidade da mistura asfáltica. Recorri à Justiça para que sejam cancelados os contratos das três empresas do grupo Concremat (Concremat, Concrejato e Contemat) com o município.  Vamos aguardar e torcer pelo bom senso do judiciário.

Fiscalizando os contratos do asfalto do Rio, o pior do mundo, descobri mais um buraco na gestão do prefeito Eduardo Paes: a queda vertiginosa de investimento no programa de recapeamento – o que não ajuda a melhorar o cenário lunar das nossas ruas. Os recursos da ação Asfalto Liso sofreram a redução olímpica de 99,98%, entre 2011 e 2016. Quando o programa foi criado, em 2011, recebeu R$ 329 milhões. Para este ano estão previstos R$ 437 mil. Resultado: além de pagar pelo asfalto que esfarela, toda hora o cidadão tem que trocar o pneu do carro, alinhar e balancear, porque as ruas esburacadas acabam com os veículos. Em nenhum lugar do mundo este absurdo seria tolerado. Mas parece que, aqui, tudo pode. Pobre Rio de Janeiro, esburacado, malcuidado e entregue a tantos malfeitores.

RIO FORA DOS TRILHOS

O VLT começou a operar no primeiro fim de semana de junho, em caráter experimental. Numa cidade carente de um sistema de transportes eficiente, a expectativa para o funcionamento do trem que vai cortar o Centro não poderia ser diferente: filas, superlotação, tumulto. A população querendo saber como o novo transporte iria funcionar. Embora o VLT já seja um sucesso de mídia, essa primeira experiência mostrou o que vem pela frente: muita confusão. E não é que até a rede elétrica falhou?!

O Ministério Público chegou a ajuizar uma ação civil pública para que o VLT só entrasse em funcionamento com todas as garantias de que não ofereceria riscos à população. Mas a Justiça negou o pedido. E o trem passou a circular sem que o sistema de sinalização estivesse plenamente instalado. E o que se viu foi o prenúncio de um desastre: pedestres, ciclistas e automóveis cruzando a linha do trem e obrigando os condutores a frear bruscamente. Imagine quando o sistema estiver funcionando plenamente…

Já tivemos a tragédia da ciclovia da Niemeyer, que foi construída sem os devidos cuidados. E agora, mais uma vez, a prefeitura bota a segurança da população em risco, com a inauguração corrida de um sistema que ainda não está totalmente pronto para o funcionamento. Mas as eleições e as Olimpíadas estão aí… E o prefeito tem pressa de posar ao lado de seu candidato, conduzindo o trem mais caro da história desta cidade. Porque, se tudo der certo, ninguém vai questionar o custo da brincadeira de trenzinho: R$ 1,157 bilhão. Isso, sem contar as obras faraônicas dos equipamentos olímpicos, como o Centro de Tênis e o Campo de Golfe, que nenhum legado deixarão para a população. Com tanto dinheiro mal empregado, daria para botar a Saúde, o Transporte e a Educação nos trilhos. Mas isto está fora de jogada.